Série Cultura Indígena Cantada: Arandu Arakuaa

Recentemente, muitas bandas tem aderido ao movimento indígena, seja na estética, nas letras ou no acréscimo de instrumentos tribais em suas composições, mas se quisermos conhecer melhor sobre o assunto, devemos falar da banda pioneira na temática, muitos de vocês devem ter pensado no Sepultura, devo confessar que antes de conhecer a Arandu Arakuaa também cometia esse mesmo erro.
 Arandu Arakuaa (saber dos ciclos dos céus ou sabedoria dos cosmos em tupi guarani), teve seu início em abril de 2008 quando o guitarrista Zândhio Aquino começou a compor músicas em Tupi Antigo. Depois de diversas tentativas mal sucedidas, entre outubro de 2010 e fevereiro de 2011 a banda finalmente teve sua estabilização com a entrada de Nájila Crsitina, Adriano Ferreira e Saulo Lucena, respectivamente. Mais recentemente o músico Juan Bessa assumiu as guitarras da banda, fechando assim a formação.
Formação atual Arandu Arakuaa.
 A originalidade começa com o fato de todas as letras do primeiro disco terem sido compostas em Tupi Antigo, sem contar com a inclusão de diversos instrumentos indígenas como o pau-de-chuva e a maracá. O toque de regionalismo é evidente na utilização da viola caipira e dos diversos climas alternados criados em cada música, podemos encontrar diversas vertentes do rock misturados com o nosso regionalismo em uma única canção. Os climas são mais evidenciados ainda com o contraste vocal feito por Nájila Cristina, que no piscar de olhos passa de um gutural para uma voz doce e limpa.
  Pegando a letra de Aruanãs como exemplo dessa variação vocal, encontramos: 

Abá o-ikó ‘y pupé
Os índios moravam dentro do rio
Taba suí ‘y pupé
Na aldeia dentro rio
Kunumim o-monhang r-apé
O menino fez o caminho
Kunumim o-monhang r-apé
O menino fez o caminho
Yby oby supé
Para a terra verde
Arara kûara-pe
Para o buraco das araras
Kunumim o-monhang r-apé
O menino fez o caminho
Kunumim o-monhang r-apé
O menino fez o caminho
Yby oby supé
Para a terra verde
Arara kûara-pe
Para o buraco das araras

   Os Dois primeiros versos são cantados de uma forma limpa e os demais com o gutural, para quem conhece o mito de Aruanãs e a criação dos Karajá, fica fácil de assimilar o motivo. De forma sintetizada vou explicar esse mito, os índios moravam dentro do rio e eram felizes, foi pela curiosidade de Aruanã que finalmente eles foram para a terra (o buraco das araras) e essa transformação de peixe em humano causou muita dor, talvez por esse motivo temos a evidencia do sentimento com o gutural, demonstrando que foi algo difícil para os índios. Vale ressaltar que anualmente os Karajá fazem a festa de Aruanãs, para lembrar as origens de seu povo. Nessa mesma música encontramos a viola e a variação entre o rock pesado e o regionalismo. Muita originalidade, não?

  O primeiro disco da banda foi lançado em 23 de agosto de 2013 pela MS Metal Press, intitulado Kó Yby Oré, contando com a produção e mixagem de Caio Duarte (Dynahead, Device, Aphroditte), artes de capa e internas por Leandro Lestat, voz por Nájila Cristina, guitarras, violão, viola caipira, vocais tribais, teclado, maracá e apito por Zândhio Aquino, baixo, backing vocal e maracá por Saulo Lucena, bateria, percussão e maracá por Adriano Ferreira. Todas as músicas e letras são de composição do guitarrista Zândhio Aquino. O disco conta com 13 músicas inéditas, para a divulgação foram feitos dois videoclipes e um lyric vídeo. 
  A faixa de destaque no disco, por conter todos os instrumentos tribais, viola caipira e as variações vocais é Gûyrá, tanto que dela foi feito o primeiro videoclipe. Vale ressaltar aqui que todos os videoclipes e o lyric vídeo também foram dirigidos por Caio Duarte, parceria que vem dando muito certo para ambos os profissionais. 
Zândhio Aquino no clipe Gûyrá.
Saulo Lucena no clipe Gûyrá.
  Recentemente foi anunciado a gravação do segundo disco da banda, o produtor escolhido foi o Caio Duarte, o trabalho tem fluído tão bem que em apenas três dias a pré-produção do disco já foi concluída e o próximo passo será a gravação da bateria com o excelente músico Adriano Ferreira. O disco tem previsão de ser lançado já no segundo semestre de 2015.
Zândhio Aquino e Caio Duarte.

  Em relação a participações musicais, no começo do ano passado foi anunciado em diversos meios de comunicação, uma parceria muito interessante com a banda paulistana Aclla. O vocalista Otávio Bichara tem disponibilizado diversos vídeos falando sobre o andamento da gravação e pelo que tudo indica logo o disco será lançado. Pelo que tive acesso, mais uma obra prima do rock nacional está por vir. Uma parceria muito interessante realizada mais recentemente foi com o grupo Cyber Croatoan, a temática escolhida foi o Ritual dos Mortos, uma mistura muito interessante e de valor cultural imenso.  
  O que nos resta é esperar o lançamento do novo disco ansiosos. Mas enquanto isso não acontece deixo para vocês uma palhinha do que essa banda é capaz:


Participações:

 
Acompanhe Arandu Arakuaa:

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